Microbiota e obesidade


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Os microrganismos que habitam nosso intestino afetam o aproveitamento energético dos alimentos e alguns deles podem estar relacionados com ganho de peso


Por Barbara Salgueiro, Lara Varela, Talita Viana, Marina Oliveira, Henrique Haidar e Iris Santana


A obesidade é uma doença crônica e multifatorial que resulta no acúmulo excessivo de gordura corporal, podendo trazer consequências patológicas em médio e longo prazos. Esse é considerado um dos maiores problemas de saúde pública da atualidade. De acordo com o Ministério da Saúde, o número de obesos no Brasil aumentou 67,8% entre 2006 e 2018. A obesidade é um fator de risco para várias doenças podendo-se citar: câncer, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, doenças cerebrovasculares, apneia do sono, osteoartrite e diabete Melittus tipo dois. Além disso, a obesidade pode levar a distúrbios psicossociais, depressão, transtornos de ansiedade e alteração de imagem corporal.

Atualmente, vários estudos vêm apontando uma relação entre a composição da microbiota intestinal e o controle do peso corporal. A microbiota intestinal humana é composta de aproximadamente 100 trilhões de bactérias envolvendo mais de mil espécies e que se encontram em relação de simbiose com o organismo. A microbiota é a população de microrganismos que habita a pele e as membranas mucosas de um indivíduo. Estimativas dizem que há 10 vezes mais microrganismos em nossos corpos do que nossas próprias células.

Esses microrganismos são importantes para promover um bom funcionamento do organismo ajudando na produção de algumas vitaminas, como a B e a K e na produção de serotonina, também possuem um papel importante no sistema imunológico agindo como barreira, ajudando a combater outros microrganismos e mantendo a integridade da mucosa intestinal, além de assegurar uma boa função digestiva. As relações que a microbiota intestinal exercem sobre os diversos sistemas do organismo refletem também na manutenção do metabolismo, com isso, a microbiota afeta tanto a aquisição de nutrientes quanto a regulação da energia adquirida. Um exemplo disso é a regulação do armazenamento de gordura através de sinais microbianos que agem inibindo enzimas envolvidas nesse processo.


Nesse sentido, uma série de estudos foram realizados com o objetivo de esclarecer a relação da microbiota intestinal e a obesidade. A cientista Cindy D. Davis no estudo: The gut microbiome and its role in obesity (O microbioma intestinal e seu papel na obesidade), de 2016, analisou vários outros trabalhos sobre o tema, envolvendo experimentos com ratos em sua maioria, e chegou à conclusão de não somente a microbiota influencia na capacidade de extração energética dos alimentos, mas também interfere se individuo se tornará ou não obeso. Sob esse prisma, ratos obesos possuíam em sua microbiota uma maior população de bactérias do tipo Firmicutes. Estas bactérias conseguem extrair maior quantidades de energias dos alimentos, pois muitos polissacarídeos e carboidratos complexos, que não são digeridos pelo individuo (hospedeiro), são metabolizados pela bactéria, liberando ácidos graxos de cadeia curta que podem ser aproveitados pelo hospedeiro. Além disso, essas bactérias atuam na modulação de genes do hospedeiro relacionados com deposição de energia em adipócitos, como por exemplo atuando na FIAF (fator de rápida indução de adipocitocina), aumentando a massa gorda corporal. Já nos indivíduos magros foi observada uma maior população de Bacteroidetes, bactérias que tem menor capacidade de extração de energia dos mesmos alimentos se comparada as bactérias firmicutes.

Em estudos em humanos, onde o material fecal de voluntários obesos e magros foi analisado, os resultados mostraram que ss indivíduos obesos tinham mais Firmicutes e quase 90% menos Bacteroidetes do que os indivíduos magros. Para avaliar se a dieta influenciava a composição da microbiota desses indivíduos, eles fizeram um ano de uma dieta com baixo teor de gordura ou carboidratos. Após esse período eles perderam até 25% do peso corporal e a proporção de Firmicutes em seu cólon caiu e a de Bacteroidetes aumentou. Tanto esse quando outros estudos mostraram que a nossa alimentação pode afetar os tipos e quantidades de determinadas bactérias da nossa microbiota.

Torna-se evidente, portanto, que a modulação da microbiota pode ser usada como uma ferramenta valiosa no combate a obesidade. Dessa forma, deve-se fazer uso de probióticos e prébioticos, além de uma alimentação saudável e balanceada, a fim de colonizar o intestino com uma diversidade de bactérias benéficas para nossa saúde. Lembramos que essa é uma forma de melhorar apenas uma das variáveis de uma doença multifatorial que é a obesidade.



Referências:

Davis, C.D. 2016. The Gut Microbiome and Its Role in Obesity. Nutr Today. 51(4): 167–174.


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